Contos

Flash Fiction – Souvenir Reflexivo

Há algo de macabro nos espelhos. Era o que dizia Tia Gertrudes, em sua sala de estar entulhada, quando a noite entrava pelas cortinas. “Nessas horas, eles refletem o que você menos quer ver.” Ela se referia ao grande espelho do século passado, destaque contra o papel de parede oliva e espremido atrás dos souvenires.

 Assim, admito que há algo de irônico em acabar presa dentro do armário que agora comporta este mesmo espelho. Entrei apenas para deixar uma caixa, e a porta se fechou atrás de mim, emperrando.

 Mais um “quartinho da bagunça” que propriamente um armário, o cômodo era pouca coisa mais largo que a moldura do objeto que estava montado na parede do fundo. Havia uma janela, mas as estantes a bloqueavam, a trava da veneziana para sempre fora do alcance. A luz era uma lâmpada incandescente que falhava em sua lenta morte. Mas o espelho continuava reluzente, a superfície imaculada.

 Há suor nas minhas palmas. Tia Gertrudes falava que era uma premonição ruim suar nas mãos, e eu digo que é stress, mesmo. Viro-me para a porta e dou mais um round de pontapés, porém, do canto do olho um movimento chama minha atenção.

 Eu posso jurar ter visto outra pessoa no quarto.

 Encaro o espelho, e ali estou eu: o cabelo preso, os olhos afundados nas olheiras, a roupa de faxina. E no canto do reflexo vejo uma sombra, um vulto mais ou menos humano que ao perceber-se observado, esconde-se para além dos limites da superfície.

 Viro para a porta e decido nunca mais olhar para aquela droga de espelho. A maçaneta vira até a metade, mas a lingueta continua imóvel, firme dentro do batente.

 A sensação de ser observada é forte. Ouço vozes enchendo o quartinho, o ar quente de um elevador lotado me envolvendo.

 Respiro fundo. Penso nas técnicas de respiração que deveria usar em lugares lotados. É só não deixar os pensamentos ruins tomarem conta, e a solução aparece.

 Lembrei! Há uma chave de fenda na gaveta ao meu lado. Posso forçar a fechadura com ela. Sim, com paciência tudo se resolve…

 Só que está demorando muito. A ferramenta samba no buraco, e ouço cochichos e risinhos atrás de mim. “Nem isso consegue fazer!”, algum deles zomba. Mexo mais e mais, vou mostrar para aqueles enxeridos que eu posso me virar muito bem sozinha. A ferramenta finalmente engata em algo, e a giro. Está presa. Com um esforço tremendo, tento forçar o movimento, mas o que eu consigo é parti-la ao meio com um estrondo. O cabo voa para longe e corto o dedo no metal exposto.

 Risadas. Risadas enchem o armário. Frustrada, dou um soco na porta. O impacto é a gota d’água para a lâmpada idosa, e a luz se esvai do recinto num estalinho.

 Eles se reúnem ao meu redor. A sala está cheia, ouço seus murmúrios, sinto seu olhares me reprovando.

 Tudo bem, é só lembrar das técnicas de respiração da Tia Gertrudes. Com elas, ela conseguiu sobreviver, chegou a viajar o mundo…

 E até ela as abandonou no fim.

 Visitou cada continente, e quando voltou, fechou-se no seu apartamentinho, o transformou num casulo cada vez mais apertado, até manter todos as vozes, todos os olhares lá do lado de fora. Definhou lá dentro.

 As sombras se movem. Me empurram, me espremem contra a parede. Este quarto, as risadas e zombarias, este é o meu túmulo.

 “Sabemos o que é melhor para você.”

“Enturme-se!”

“Vai dar vexame outra vez?”

 Mas na escuridão há um brilho. Algo reflete a pouca luz que entra pela fresta da porta. A multidão me aprisiona, mas abro caminho e sigo até o lampejo.

 É um canivete antigo, lembro quando Tia o trouxe da Suíça. Quase todas as ferramentas estão quebradas, mas a faca ainda está ali.

 A encaixo na fresta abaixo da lingueta e puxo para cima. Caio no corredor e as sombras se dissipam.

 Observo o cômodo vazio, o meu reflexo perfeito no fundo. Chega! Cansei de espelhos, das coisas de Gertrudes empilhadas na minha casa, das pessoas reais ou imaginárias que agem como se eu fosse um brinquedinho delas. Eu vou é embora! Deixar tudo isso e viver.

 “Deixar tudo isso e viver”. Onde ouvi isso antes? Foi Gertrudes, jogando algumas roupas dentro da mala e indo viver sua volta ao mundo.

 Nos cartões postais, ela dizia que os olhares eram ruins em todos os lugares. Será que ela fugiu até não ter mais onde se esconder?

 Olho para o espelho e deixo a porta do quarto aberta. Amanhã, o enfrentarei de novo.

 Os espelhos revelam o que você tem que vencer.

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