Resenhas

Resenha Geek Love – Katherine Dunn

“Papai, conte como você pensou em nós!”

 Há algo aberrante na capa vermelha, amarela, preta e azul da edição da Darkside de Geek Love. Quem lê o título sem conhecer o conteúdo estranha tal opção, afinal, Geek Love soa como um romance sobre nerds, uma comédia romântica de um casal desajeitado, mas o visual é  de um velho pôster de circo. Quando se descobre que o livro é sobre três gerações de uma família circense que dá novas noções ao conceito de bizarro, o título é que parece estar desajustado. Mas duvido que exista melhor forma de resumir o amor expressado pelos Binewski.

 Aloysius “Al” Binewski e sua esposa “Crystal” Lil lutavam para manter o circo na ativa. Devido a artistas abandonarem a trupe de última hora, Lil teve até mesmo que fazer o papel de geek, que em sua definição original era uma pessoa que se fingia de selvagem e arrancava cabeças de galinhas com os dentes. Em meio a isso e um encontro com rosas geneticamente modificadas, Al percebeu que poderia pôr em prática os conhecimentos que tinha em medicina e criar seus próprios astros.

 A cada gestação, Lil ingeria uma quantidade de drogas e venenos, ou até radiação, para criar filhos tão estranhos que as pessoas pagariam para vê-los.

“Que melhor presente se pode oferecer aos filhos além da capacidade inerente de ganhar a vida simplesmente sendo eles mesmos?” ~Lil sobre os filhos.

 Desses experimentos, os sobreviventes foram Arturo “Arty”, o “Aqua Boy” do circo, um rapaz temperamental com nadadeiras no lugar dos braços e das pernas; Electra “Elly” e Iphigenia “Iphy”, as irmãs siamesas que dividem o mesmo quadril e pernas, com personalidades conflitantes e grande talento musical; Olympia “Oly”, uma tímida faz-tudo anã albina, corcunda e careca; e Fortunato “Chick”, que é um menino aparentemente normal, não fosse pelo segredo da família.

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Imagem por Laura Park

 

 Essa história, sobre as vitórias e as dores da família durante o crescimento dos filhos, dos horrores causados das rinhas entre irmãos, da forma que pessoas tão diferentes encaram os normais do mundo, ela pertence à Olympia. Escrito como um relato em primeira pessoa da personagem, Geek Love é a expressão de alguém que ficou calado por tempo demais.

 Oly nunca teve um show próprio, já que suas deformações não eram tão interessantes quanto as das gêmeas, nem tinha aptidões como o nado de Arty. Assim, a anã fazia dezenas de pequenos trabalhos, de anunciar os shows com a sua voz forte e vender os ingressos, até oferecer ajuda aos irmãos após o espetáculo. Estando em toda parte sem ser o foco da atenção, Olympia conheceu o circo e a família mais a fundo que qualquer outra pessoa.

“Mas quando o olhar dele mudou percebi que se há uma coisa que um garoto saudável, bonito e totalmente normal não faz é se apaixonar por gêmeas siamesas. Foi assim que aprendi. Eu posso amar um normal daquele jeito. Mas se ele me amar é porque o perverti e transformei. Se me amar, ele está corrompido. Não posso mais amá-lo. Não vou fingir que não doeu.” ~Iphy sobre um ex namorado.

 Os capítulos são divididos entre anedotas do passado e as anotações de um período mais recente. O mundo do circo e os elementos mais fantásticos da narrativa são apresentados uma estrutura quase linear, mas em forma de relato, assim eventos futuros e passados são relacionados enquanto as memórias de Oly se encaixam. Enquanto isso, os capítulos mais atuais são sempre sinalizados como “Anotações de Agora”, onde Olympia relata sua vida adulta morando em um apartamento em Portland e cuidando da velha e demente Lil. Aqui a anã se esforça para manter sua identidade um segredo da filha universitária, que foi criada num internato e nunca conheceu a mãe.

“Lily escolhe me esquecer, e eu escolho não dar nenhum lembrete, mas tenho muito medo de notar vergonha ou desgosto no rosto de minha filha. Isso me mataria. Então eu as observo e cuido delas em segredo, como uma jardineira da meia-noite.” ~Oly e sua vida em Portland.

 Pequenos detalhes de um capítulo podem trazer consequências catastróficas nos seguintes, e o estilo sem delicadezas da narrativa é pouco amenizado pelo humor que segue os momentos mais duros.

 Imagino eu que é este impacto que caracterizou Geek Love como um livro da seleção da Darkside: Katherine Dunn é capaz de entregar momentos tão intensos que o livro vai de tragédia familiar para dentro do território do horror.

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 Mas talvez a razão principal para o livro relevante 30 anos após o lançamento é a curiosa concepção sobre o que é estranho e quais são os limites da normalidade. Ao acompanharmos esta família incomum, vemos os mesmos jogos de poder, mágoas da infância e desconexão entre pais e filhos que desestabilizam lares mais convencionais, tudo elevado por dez. Isso torna qualquer deficiência física irrelevante perto do psicológico dos filhos Binewski.

 Este conceito ressoou extremamente bem para o então movimento Grunge, que ascendia na época do lançamento. Kurt Cobain era fã da obra, e o Jim Rose Circus, atração circense que viaja com o festival Lollapalooza cuja apresentação é inspirada no livro, teve membros do Nirvana e do Pearl Jam assistindo já na estreia.

  Outro famoso que não poderia deixar de gostar de toda a premissa é Tim Burton. A Warner mantém os direitos da obra para que Burton e Henry Selick (de “O Estranho Mundo de Jack” e “Coraline”) façam uma adaptação em animação do livro. Vendo que os direitos foram comprados ainda nos anos 90, parece difícil o projeto sair do papel.

 Muitos outros nomes terminaram de estabelecer Geek Love como livro cult. Alguns que a edição ressalta na contracapa são o baixista Flea, do Red Hot Chilli Peppers; Neil Gaiman; Terry Gilliam, do grupo de comédia Monty Python; as irmãs Wachowski e Tarantino.

“Tenho vislumbres do horror da normalidade. Cada um desses inocentes na rua é tragado por um terror da própria natureza ordinária. Fariam qualquer coisa para ser únicos.” ~Arturo sobre normais.

 Mas o que afinal seria o amor de um geek? A própria Katherine Dunn afirmava que este não era o título que ela pretendia para a narrativa. Geek Love era uma forma fácil dela se referir ao que ela estava escrevendo quando as pessoas perguntavam sobre o novo livro. Porém, acho que descreve a forma que os Binewski amam como poucas expressões seriam capazes de condensar. É o amor seguido da dor, um fogo que queima tão profundo que vai inevitavelmente destruir o objeto amado. É o ardor do louco que arranca com os dentes a cabeça do animal que afaga.

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O livro rendeu múltiplas edições com as capas mais diversas.

 Existem livros bons que deixam um gostinho de quero mais ao fim, e livros bons que arrematam todas as pontas soltas daquela história e a sela para sempre. Geek Love pertence à esta segunda categoria. Até Dunn ficou arrasada ao terminar o manuscrito e perceber que nunca mais poderia revisitar aqueles personagens, após dez anos pensando e escrevendo sobre eles. É mesmo um livro que merece um funeral ao ser terminado.

 Enfim, a capa de Geek Love não é somente um velho pôster de circo. Também é um baú de fantasias, um álbum de memórias, a chave de um segredo não compartilhado. É a herança de Olympia Binewski.

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Referência:

ROPER, Caitlin. Geek Loved. Willamette Week, 02/04/2014. Site: https://www.wweek.com/portland/article-22200-geek-loved.html  Último acesso 24/01/2019

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