Contos

Mini Conto – A Volta

 Ela deixou a cidade e toda a estática para trás. No início do caminho, um bilhete de agradecimento largado na mesa daquele quartinho atrás do restaurante japonês, junto com o pagamento pela estadia. Desceu andar após andar as ruelas estreitas, pela névoa condensada e os sem-teto que se abrigavam em caixas. Ali os grafites eram expostos como pinturas rupestres, que resistiram toda propaganda de que aquele era o polo cultural mais avançado do mundo.

 Da cidade, nada acrescentou em sua mochila. Ignorando as avenidas principais, ela conseguia evitar o fluxo: os lugares, as pessoas, os movimentos sociais, tudo que surgia em sua tela e tornava a já saturada metrópole numa alucinação pulsante. Sabia se defender, e contornou assaltos uma, duas, três vezes antes de chegar às luzes de lítio da estrada.

 Evitava o transporte público por razões próprias, e não tinha dinheiro nem espaço para manter um veículo. Além que esta viagem era especial, simbólica: chegou à cidade andando, e iria embora andando, como num rito necessário para a peregrinação.

 Ao lado da estrada ficava o Vespeiro. Mais compacto que a metrópole e de nascimento natural, o complexo do Vespeiro surgiu da necessidade daqueles que viviam da cidade mas não podiam habitá-la. Cada ano, os cubículos irregulares aumentam suas ameaças de fechar o céu acima da avenida principal, engoli-la e ultrapassar a altura dos arranha-céus que fingem os ignorar.

 Porém, até os esquecidos se esquecem dos que vem após suas caixas de concreto. As habitações de alvenaria exposta eram os últimos sinais vida por vários quilômetros de planícies descoloridas. Como sua saída foi de manhã cedo, e ao meio dia ela estava fora do Vespeiro, ao anoitecer passara da metade do caminho.

 Pediu asilo nessas residências da beira da estrada, sem ser aceita em qualquer uma delas. Usou da funcionalidade escondida em seu sobrecasaco, e armou-o numa tenda. Dormiu embaixo de uma árvore petrificada.

 À primeira luz da manhã, o acampamento foi desmontado e o caminho retomado. As casas sumiram, dando lugar para as plataformas dos tanques. Algas, peixes, crustáceos e arrozais, todos ocupando o mesmo espaço e tratados por máquinas. Certa vez ela conheceu habitantes da cidade, nascidos e vividos a vida inteira nos complexos, que entraram em pânico ao serem apresentados para as plantações.  O orgânico não fazia mais parte do subconsciente deles, e a ideia de que seus alimentos favoritos um dia foram vivos os causava horror.

 Então, no horizonte, o lar brilhou feito sol. Imponente e ofuscante, a torre branca era o coração das plantações, o setor mais afastado, que mantinha a metrópole viva praticamente sozinho. Alimento, água, utensílios, vestimenta, construção: Tudo ali começava e ali terminava. Aparentemente, ela também.

 Esta não era uma volta triunfante, mas sim uma trégua, uma rendição aos fatos da vida que se mostraram mais imutáveis que suas aspirações. Não pertencia à cidade, independente do quanto acreditava em si mesma. De cabeça baixa adentrou o hall da torre, erguendo a tela do capacete para ser reconhecida.

 Todos os familiares, amigos e conhecidos a cumprimentaram e pareciam felizes pela volta. A levaram para uma suíte e a deram um conjunto de roupas novo, encaminhando suas vestes de viagem para a descontaminação.

 Logo entrou uma senhora bem vestida, a chefe do setor e rosto da corporação. Mãe. A mulher a recebeu de braços abertos e um sorriso no rosto, as perguntas e o tom de voz mostrando sua natureza atenciosa de sempre. Mas quem a conhecia à fundo, percebia o orgulho próprio, a satisfação de estar certa novamente. “Eu te disse”, expressavam seus olhos, “mas você não quis escutar”.

 Em nenhum momento ela faltou com o respeito ou deixou de demonstrar seu amor pela filha, mas em todos a repreendeu e a rebaixou. Terminada a conversa, as duas fingiram que os últimos cinco anos não haviam acontecido e voltaram às suas tarefas.

 Mas não era o mesmo de cinco anos atrás. As informações pessoais e conexões chegaram até a Torre, e logo ela se viu usando o capacete novamente, enroscada nas redes que tentou se desvencilhar. O trabalho havia sido automatizado e requeria menos dela, suas horas passadas na frente de um painel de comando do que entre os tanques.

 Passado um mês, teve a epifania de que sua vida atual na torre era basicamente habitar um quartinho que não a pertencia, olhando para um computador o dia inteiro, num ambiente cheio de pessoas que a deixavam desconfortável. Sua vida na cidade era habitar um quartinho que não a pertencia, olhando para um computador o dia inteiro, num ambiente cheio de pessoas que a deixavam desconfortável. A diferença é que aqui eles ainda se achavam maiores, melhores e mais saudáveis que os habitantes da cidade.

 A segunda epifania veio numa noite, plena madrugada, quando percebeu que o que procurava estava num passado remoto, que já não pertencia mais à Cidade ou até mesmo à Torre, inalcançável. As melhores alternativas seriam encontrar algo novo para preencher o vazio da vida perdida, ou deixar de buscar e contentar-se com o que tinha.

 O dia amanheceu com um bilhete de agradecimento em seu quarto vazio.

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2 comentários em “Mini Conto – A Volta

  1. E finalmente consegui ler! Tinha começado mas parei na metade, agora li por completo. Ótimo texto.

    E me fez pensar numa situação: quantas vezes batemos com a cara na porta? Vamos atrás de sonhos e a realidade vem a tona se mostrando algo muito diferente. E voltamos à normalidade, no caso do texto, penso que ela voltou pela prisão que sentiu.

    Curtido por 1 pessoa

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