Contos

Nowhere Man

He’s a real nowhere man
Sitting in his nowhere land
Making all his nowhere plans for nobody” –
Beatles

 Eles se encontraram no meio do palco, na hora marcada de certo dia. Formaram um círculo, acompanhando a luz do único holofote aceso naquele teatro vazio. Era a primeira vez que os atores, o diretor, o autor e a cenógrafa se encontravam enquanto grupo, a cumplicidade de um primeiro olhar.

 Foram dois dias para escolher os dois atores presentes ali. Jorge se portava tranquilamente, o palco sendo sua segunda casa, apenas forçado à produção desconhecida por causa de um ano ruim.

 Haviam sido dias duros para Jorge. Seus problemas com a bebida fecharam as portas da rede de televisão que anos antes o acolhera como iniciante; o rompimento com a esposa, aclamada crítica de teatro, também fechou as cortinas.

 Mas ele ainda era o galã, e crises passageiras não o abalariam. Mais difícil era para Carmélia, que do outro lado do diâmetro do círculo, o fitava e tremia.

 Ainda era estudante e ansiava estrear pela primeira vez. Era excelente desde os teatrinhos do jardim de infância, mas todas as audições que participara terminavam com um legítimo “NÃO”, ou, muito pior, sem resposta alguma. Deixada para sufocar no vácuo.

 Sentia-se envergonhada por ter dormido com Jorge uma semana antes, na esperança que ele conseguisse um lugar para ela em alguma peça. Ainda mais encabulada agora que havia funcionado. Ainda mais num musical.

 “Bem vindos! Bem vindos à nossa trupe improvisada, nossa pequena fábrica de sonhos. Nowhere Man! Breve estará em cartaz em todos os teatros deste país, aclamada até lá fora! Até lá fora. Vamos trabalhar, o espetáculo não se faz sozinho.” O diretor terminou o discurso vago com uma risadinha e de sorriso maior do que cabia no rosto. Entregou um roteiro para cada ator e se voltou ao escritor e a cenógrafa para discutir algo em particular.

  Ambos ficaram abismados com o tamanho do texto completo, para uma peça que supostamente mal duraria uma hora. Jorge teve a vaga lembrança de uma lista telefônica, e Carmélia tinha certeza que aquele calhamaço era maior do que as apostilas do cursinho.

Os dois ficaram quietos, no desconforto de serem forçados a enrolar uma conversa fiada enquanto sós. A passividade de Jorge a aturdia ainda mais; o rosto dele nada a revelava.

 Por fim, ela teve que quebrar o silêncio.  – Que bom que vamos trabalhar juntos! Faremos uma boa dupla, não acha? – Ela disse.

-… Talvez. – Foi a única resposta.

 Ela não aguentaria mais silêncio. – Na audição eram só três páginas… Nunca imaginei que seriam tantas falas assim.

  – Já fiz um monólogo de tamanho parecido antes. Você está com medo?

 Claro que ela estava. Começava a duvidar da capacidade de atuar numa peça junto da estrela dos escândalos do momento, além de dirigida pelo diretor mais experimental da década. Desta vez, ele armava um espetáculo adaptando um conto de um prodígio que achara no meio do cerrado.

 E ela sabia que era medo que Jorge queria que ela sentisse. Ele podia mandar e desmandar, chamar outra em seu lugar e assim ficar livre de olhar nos olhos dela.

  – Claro que não – Ela disse a ele, – Acho que será bem divertido.- E sorriu.

 Um breve movimento da sobrancelha foi tudo que ele deixou transparecer de sua perturbação. Divertido? Quem chama o emprego disso. Alguém leviano que não dá a importância que as coisas merecem. Memórias de outra pessoa leviana que achava tudo divertido começaram a inundar sua mente e ele preferiu esquecer tudo e mudar de assunto.

 – Você foi muito bem nos testes.

 Antes dela responder, o resto do grupo retornou. Com o mesmo sorriso pomposo e voz exagerada de antes o diretor anunciou: “Tudo certo por hoje! Estudem os textos e estejam prontos para o ensaio de amanhã. Muito bom, muito bom! Vamos jantar, sei do lugar ideal. Pago a conta.”

 E assim a trupe deixou o palco e o teatro, as luzes se apagaram, as cortinas se fecharam e os fantasmas foram deixados no vácuo.

***

Nala: E quem és para falar de meu passado? Achas que conheces meus sonhos? És teu o sonho de chegar aos céus no topo da grande roda dourada?

Mr. Blank: De jeito maneira alguma, madame! O que te digo é que estás louca! Andar na roda gigante é sonho de crianças, nem mesmo conta como façanha. Por mim, tu é que não sabes o que um sonho é.

Nala: Olha com quem falas, rapaz. Sou vinda das terras de além do espelho, e vivo os sonhos teus, os dele, os dela, todos os dias de minha vida, só nunca tive coisa minha que pudesse chamar de sonho. E eu quero que o meu seja ver seu mundo do topo da grande roda dourada.

Mr.Blank: Não é só no mundo além do espelho que existem sonhos! Gente viva tem sonhos vivos também! E adultos sonham, ambicionam, tramam, cobiçam e polemicari… pole… carimi… Desculpe, preciso de uma pausa.

 Jorge voltou para as coxias enquanto Carmélia se alongava no palco. Ele subiu ao camarim, se apossou da garrafinha metálica que escondia atrás das maquiagens, e pôs-se a beber. Em retrospectiva, foi uma besteira entrar nesta peça. O roteiro confuso fazia pouco mais sentido que seu divórcio, e muito menos do que o desgaste que sentia pela interpretação. A morena de cabelos curtos também o irritava. Os olhares que ela o dirigia, além dos breves sorrisos, estaria tudo na performance? Ele se pergunta se Carmélia contara a alguém sobre aquela noite. Ela fora radiante então; agora é uma luz que ofusca a vista, não de um modo bom.

 A personagem Nala é tão boba – ela acredita ser uma pessoa irreal fugida do mundo dos sonhos, que agora quer viver seus sonhos no mundo real.

 Mr. Blank era real: Alguém para colocar a moça delirante no seu lugar, e, pelo que ele entendia ao folhear o roteiro, a levava ao clímax da realização de sua condição, com a última música intitulada “O fim de um sonho”.

 – Agora, se eu conseguisse entender essa merda de final…

– Não estaria pensando essas besteiras, eu suponho?

 Jorge se virou em um pulo.

 O estranho à porta sorria para ele. Ele certamente não estava ali quando Jorge entrou na sala, e, naquele teatro apertado, os camarins ficavam no topo de uma escada em espiral. Será que o estranho já estava no recinto quando Jorge entrou, será que ele viu onde o ator escondia sua garrafa? Há quanto tempo se encontrava ali, o ouvindo resmungar?

 – Prazer, amigo. Acredito que não tenham nos apresentado ainda. Sou Carlos, trabalho com a produção.

 Jorge, sem tirar os olhos da figura, coloca sua garrafa casualmente sobre a mesa, para dar a impressão que ali só tinha água. Eles vão falar como se o outro tivesse acabado de entrar.

– Prazer, ah, Carlos. Acho que você sabe quem eu sou. Ouvi que a cenografia da peça vai ser “estrondosa”, confere isso?

 O homem deu uns passos para dentro, parecia estar medindo sua resposta.

– Acredito que “estrondosa” seja a palavra certa para os cenários de Priscila Lemes, sim. Já vi seus trabalhos. Ela acredita que esta peça será a obra prima dela, e está se enchendo de ideias lá no palco, enquanto falamos. Seria uma pena – Ele diz, enquanto fingia se interessar pela caneta no bolso da camisa – Se todo o trabalho dela fosse ofuscado por uma estrela apagada.

 Jorge franziu o cenho. – E quem você está chamando de estrela apagada?

 Carlos entrou no camarim, e se apoiou na mesa abaixo do grande espelho. – Estou chamando ninguém de apagado, – Disse com a maior calma – Mas você pode estar se chamando, se fica forçando a história desse jeito.

 Afinal, o que aquele sujeito estava querendo dele? Surgiu assim, do nada, e vem se metendo. Jorge queria manda-lo embora dali, mas temia que toda a produção virasse as caras para ele. Carlos parecia ser alguém experiente que põe um monte de protegidos debaixo das asas, e seriam muitas noites de apresentação naquela casa para ficar em um clima ruim.

 – Olha, nem sei o que você pensa sobre o roteiro, eu só faço o meu trabalho. Muito menos sei como você chegou à conclusão de que estou forçando qualquer coisa.

 – Você pensa alto, sabia? Além disso, forma uma aura de desgosto ao seu redor quando tem esse roteiro em mãos. O que te incomoda nele? Direi a ninguém, de confiança. – Carlos terminou com um sorriso.

 Um momento de silêncio enquanto Jorge o encarava, pensando se devia mesmo. Ao ver que o assistente da produção não ia a lugar algum, e que talvez desabafar faria bem, respondeu.

– É uma história infantil e boba, sabe? Nada adiciona, de nada fala, e só serve para, no máximo, ser uma apresentação bonita. Os personagens não parecem pessoas de verdade, são só ideias soltas. Acho que vou interpretar meio a contragosto.

– Entendo. Você sempre interpretou histórias que gostava?

– Claro que não. Na faculdade, e pouco depois, precisei fazer cada coisa maluca. Teve uma vez que tive que interpretar um mendigo, sabia? – Jorge riu da lembrança.

– E depois disso?

– Bom, tive sorte de entrar para a TV bem cedo, e desde então a maioria dos papéis que fiz foram de galã.

– Quantos anos faz que você está nessa?

– Quase quinze.

– Então, – Carlos se sentou numa cadeira vazia em frente a Jorge – Pode ser que te faça bem sair desse padrão e tentar algo diferente, não?

 – É, mas quem sabe com um trabalho melhor escrito – O ator respondeu, amargo.

– Pensa em desistir?

– Ainda não tenho certeza. Desistindo agora, terei perdido algum tempo, mas não tanto quanto atuando em turnê, o que parece que vai rolar, afinal. – E também não precisarei ver mais Carmélia, pensou.

– Mas o que é tão ruim assim em ser infantil?

– Não seria ruim, se fosse uma peça infantil. Mas na forma que é apresentada, é uma peça sem sentido, que não serve para nada.

– Servir, servir. E porque que uma peça tem que servir para alguma coisa? Acho que você está acostumado demais a ser levado a sério. Relaxe um pouco! – Disse Carlos, se espreguiçando. – Mas se para você é tão importante assim, servir para algo, saiba que o encantamento com o fantástico está em falta hoje em dia.

– Do que você está falando?

– O encantamento, como o de uma criança que vai a um parque de diversões pela primeira vez. Podemos tê-lo em qualquer fase da vida, mas quando crescemos, passamos a acreditar que é tolice e ignorância nossa. Quando nos encantamos em ver algo belo pela primeira vez, de pronto nos sentimos burros por não saber o que era isso anteriormente.

– Com o encantamento, você diz espetáculo, sim? O circo, de “pão e circo”, tirar a atenção do que é importante com brilho e música? Não me parece uma boa função.

– Se é assim que você entende. Estava falando de mais que isso, mas tudo bem. Apenas saiba que esse desvio da atenção não precisa ser uma ilusão duradoura, mas um respiro. A peça é um momento, e pode trazer reflexões que apenas batendo de frente com os problemas do dia a dia, a pessoa não chegaria.

– Com tantas peças sobre problemas sociais e culturas marginalizadas, acabei em uma que é um espetáculo por ser espetáculo, e você ainda a defende?

 Carlos suspira. – Talvez você seja uma estrela apagada, mesmo. Fique com a sua bebida, relaxe e pense a respeito do que falamos. E lembre-se, o espetáculo não irá parar por causa de alguém. Não importa quem seja. – Ele reforçou as últimas palavras, com um brilho no olhar. Levantou-se e foi até a porta.

 Jorge ignorou a descoberta de seu hábito e se virou para a figura que saía da sala. – Você é só um assistente da produção. O que vai me ensinar sobre teatro?!

 Carlos se virou.

 – Tive a minha parte em mais peças do que você algum dia irá encenar. E sei que, independente de qualquer pessoa, o show tem sempre que continuar.  – Disse, de maneira séria. – Afinal, por que você quis ser ator? – E com isso, ele deixou o camarim.

 Jorge terminou a sua garrafa em poucos goles.

***

 No palco, Carmélia se alongava. Priscila andava de um lado para o outro, desenhava com o apoio de uma prancheta e observava o que ainda era invisível.

 O silêncio perturbava a atriz. Ela quebrou o gelo.

 – Que ideias você tem para a peça?

Demorou um pouco para ela ser respondida, já que a outra, com suas bijuterias estalando, estava totalmente perdida em esboços e conjecturas. Então Priscila parou, considerou o eco da pergunta e voltou-se a Carmélia.

 – Oh, desculpe! Nem percebi que você continuou aqui no intervalo. Bem, eu tenho material digno de prêmio, você tem que ver.

 E ela mostrou à atriz os esboços de uma circunferência que tinha objetos redondos menores nas extremidades de seus raios.

 – Trarei o parque de diversões do roteiro para o palco, partes mecânicas farão a roda gigante se mover, e irão girar uma base que muda a cena conforme o ato musical.

– Bastante complexo, não é?

– Muito! Mas não tanto quanto poderia ser. Quero explorar o mundo de além do espelho que aparece no início da peça, um ambiente totalmente diferente, com intervenção audiovisual e gelo seco.

– Muito interessante. Na faculdade temos uma base de cenografia, e o professor batia na tecla de “menos é mais”. Tem algum fundamento isso?

 Priscila torceu o nariz ao ouvir a questão. – Tem sim, se você ainda vive no século passado. Quando este lema foi inventado, o extravagante era banal em tudo que se via. Das construções, aos interiores, até as embalagens dos produtos de limpeza, tudo coberto de reentrâncias, gravuras e detalhes dourados. Quando veio o simples, foi chocante. Mas agora tudo é “menos é mais”. Paredes brancas, cadeiras de metal, casas quadradas. Está na hora de inverter os papéis! E aqui é o lugar perfeito para isso.

 Carmélia sorriu.

 – Vejo que está entusiasmada com isso.

 A outra se aproximou em passos largos, com a saia tie-dye farfalhando em suas canelas.

 – Claro! Esta é uma chance única para nós duas. Você com a sua primeira performance em um musical, e eu na primeira vez que tenho liberdade total sobre a cenografia! Nada pode nos parar hoje, estamos no caminho das estrelas!

 Assim que terminou de falar, achou estranho a atriz apenas assentir com a cabeça e dar um sorriso morno.

 – O que há, menina? Que te incomoda?

– Olha, estou tão animada quanto você, só que a cada dia que passa, eu fico com mais e mais dúvidas se eu sou a certa para esse papel.

 Priscila riu. – A primeira vez é sempre assim. Insegurança é um bichinho que nos morde atrás da orelha. Me diga, por que você acha isso?

 O que Carmélia não conseguia tirar da cabeça era a frieza de Jorge. Fora do palco, ele não a dirigia a palavra, esquivava-se até de um bom dia.

 Talvez, naquela noite semanas antes, ela não tenha ficado com ele só por ganho pessoal. Talvez ela realmente tenha gostado dele.

– Ah, Priscila, eu não sei se estou no mesmo nível que o Jorge, para atuar junto dele.

– Ha, mesmo nível. Não tem como se medir o nível da performance de alguém, não de forma objetiva. Você está no nível que você pode ter hoje, e com a prática, amanhã estará melhor do que é agora. E Jorge está indo pelo caminho contrário, pelo visto. Nada a temer.

– Ainda assim, acho que não estou preparada para um musical.

– Venha cá – A cenógrafa estendeu a mão para ela. Carmélia a segurou e foi guiada do palco até as poltronas mais distantes, na plateia.

– Tive muitos desafios para ser reconhecida como profissional. – Disse Priscila. – A cenografia de peças menores costuma ser feita nas coxas, com qualquer coisa que já tinha guardada no teatro ou que os atores puderam trazer de casa. Para as peças maiores, cenógrafo só por indicação. Teve vezes que pensei em desistir de tudo, mas, seja por dedicação ou teimosia, continuei. Sabe o que me manteve no caminho? Eles. – E ela abriu os braços, gesticulando para todos os assentos do teatro, que faziam o palco ao mesmo tempo parecer pequeno e o centro da sala.

– Quem procura o teatro está atrás de algo único. Se querem ver o que todo mundo vê, vão ao cinema. Mas uma peça nunca é encenada duas vezes da mesma forma. – Disse Priscila. – E eles vêm a esta peça esperando não somente o galã grisalho, mas o nome em letras douradas do nosso diretor, as minhas maquinações e claro, a bela menina do pôster.

 Carmélia ruborizou um pouco. Tinha se esquecido que a primeira prova dos pôsteres havia sido feita uns dias atrás, e trazia ela em destaque. O diretor mandou algumas alterações, e então eles seriam distribuídos por toda a cidade. Está consumado.

 Priscila sorria enquanto olhava para a jovem ao seu lado. – Vi seus ensaios, e confio em você, menina, porque lembra a mim mesma, quando comecei. Mesmo você com medo, vejo garra em seu trabalho, e sei que você é capaz. Continue, Carmélia, continue e brilhe.

 Sim, estava consumado.

***

 Oito da noite. O diretor se preparava para sair, colocando o casaco enquanto cantarolava alguma música que ele mal lembrava, bem baixinho. Jorge se aproximou dele quando certificou-se que os dois estavam sós.

 – Senhor, lamento informar, agora, com menos de um mês para a estreia, mas terei que desistir da peça.

 O diretor se virou para ele, pouco surpreso e com um risinho estampado na cara. – Não, você não vai. Temos um contrato, lembra-se?

– Pois eu rompo com o contrato, pago qualquer multa que precisar. É só que eu não posso mesmo continuar.

– Você não vai desistir, e não por nossos vínculos empregatícios. É por causa do outro contrato, do nosso contrato, lembra-se?

 Por um momento Jorge pareceu confuso, e então a promessa do diretor de meses atrás veio em sua mente.

 – Você conseguiu convencer Ana a assistir a peça?

– Claro! Foi fácil, inclusive. Ela queria ver você dar pra trás.

– O que?!

– Ela quer ver você dar vexame, só nisso que se interessa. Até pediu para reservar uma cadeira na primeira fileira.

 A descoberta mexeu com Jorge. Ela estaria lá, então. E provavelmente com a melhor cara de “eu te disse” que ela capaz de fazer, com as mesmas críticas de sempre. Ele era o imprestável, cheio de frescuras e “não me toques”, que desistia por qualquer coisa.

 Ele iria mostrar a ela. Estaria muito bem, obrigado, executando o seu trabalho. Ana que ache outra coisa para fofocar com suas amigas.

 – Ignore o que eu te disse. Irei continuar.

– Boa escolha, rapaz.

 – Só uma coisa. Um dos rapazes da produção esteve no meu camarim umas semanas atrás, e não gostei da forma que ele se dirigiu a mim.

– Qual é o nome dele?

– Carlos, eu acho.

 O diretor fechou os olhos, tentando lembrar o nome por alguns instantes. Então, com uma expressão de surpresa, olhou para Jorge e disse: – Não conheço Carlos algum que trabalhe aqui. Estranho, muito estranho.

 E então ele se aproximou de Jorge, e quase encostando o seu rosto no do outro, disse:

 – Estaria conversando com fantasmas, rapaz?

 E com uma risada sombria ele foi embora, deixando um Jorge confuso para trás.

***

 As cortinas estão fechadas, mas é possível ouvir os murmúrios da plateia se aconchegando. Lufadas densas de gelo seco encobrem o palco, e, aos olhos de Carmélia, o ambiente parece mesmo saído do mundo dos sonhos.

 Ela nem precisa ver o chão do palco; depois de tantos ensaios, sabe o seu lugar instintivamente. E mesmo assim, ela não saía das coxias. Tinha medo dos murmúrios.

 A névoa densa a lembrava da primeira peça infantil em que se apresentou, quando tinha seis anos. Ela entrou em cena vestida de fada, dentro de uma nuvem de gelo seco, deu a fala perfeitamente e fitou o público. Ninguém se interessou por ela. Seus pais não estavam ali, como de costume. E os outros estavam de olhos e câmeras voltados para os seus próprios filhos. Olhos apenas para o que os interessava.

 Ela sorriu por causa de uma epifania boba. “Se o mesmo for verdade aqui do que foi tantos anos atrás,” pensou, “então cada um está aqui com um interesse na peça. Pensando assim, o número de pessoas que estão aqui para me ver cai. Dividindo entre Jorge, Priscila, o diretor, o autor e tantos outros, talvez eu esteja apresentado para público algum, como nos ensaios.”

 E com isso ela se posicionou no centrou do placo, pronta para se apresentar para o público nenhum de quinhentas pessoas.

***

 Quando as cortinas se fecharam após o primeiro ato, Jorge correu para as coxias, com o rubor do rosto aparente abaixo da maquiagem.

 Aconteceu o que ele acreditou que aconteceria, afinal. Ninguém conseguia entender a peça, estavam todos com uma expressão confusa, e o ato terminou quase sem aplausos. O diretor, impassível, assistia do camarote sem sequer piscar. Priscila Lemes assistia à peça frustrada: por questões de estrutura e execução, nem metade do que ela planejara apareceu na cenografia final. O fundo era sempre o mesmo, com a roda gigante estática, e o ambiente apenas mudava com o gelo seco e a iluminação.

  Mas o pior para Jorge era a poltrona na fileira da frente, apenas ocupada com uma placa de “reservado”.

 Não tinha mais razão para continuar. Tirava o paletó do figurino no mesmo momento em que o diretor chegava aos bastidores, jogou-o na direção do homem antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ergueu as mãos vazias e fez o seu caminho de volta ao camarim.

 -Agora, Jorge? – Disse o diretor. – Isto é hora de desistir?

 – Não achei que isto iria te surpreender. Mas sim, eu pulo fora antes do pior. Não fique triste, essa peça nem deveria estar em cartaz. – E assim se trancou no camarim, sentou no chão e pôs-se a chorar, humilhado.

 Depois de alguns minutos, alguém bateu na porta. Ele não abriu. A pessoa falou dali de fora mesmo, era a voz de Carmélia:

 -Jorge, por favor, você não precisa estar nas próximas apresentações, mas vamos ao menos terminar esta. Eu sei que a peça é estranha do começo ao fim, mas não podemos parar o show na metade!

 De dentro, não houve resposta.

– Por favor, Jorge, se você não quer, e não liga para o público, pelo menos faça isso por mim. É a minha estreia.

 Ele levantou, olhou a porta do camarim durante algum tempo, e então se trancou no banheiro.

***

 Ela estava tremendo da cabeça aos pés quando entrou em cena para o segundo ato. Atrás das coxias era o caos total: pessoas correndo, o diretor mandando e desmandando, e alguns entrando em desespero, agora que metade da peça ruiu abaixo.

 Carmélia entrou mesmo assim, trazendo a música que abria o segundo ato consigo:

Sozinha nos meus passos

Espero um dia ver

Um caminho que eu possa seguir

A meu bel prazer

Ela olhou entre as coxias, esperando, com as últimas esperanças, de que Jorge sentisse o peso na consciência e aparecesse, completando o dueto com seus versos.

 A atriz permaneceu imóvel, os instrumentos continuaram quietos, e nada parecia vivo enquanto o silêncio prevalecia no teatro.

 Deixada para morrer no vácuo novamente…

 E então ela ouviu, vindo do lado oposto, como eles tinham ensaiado tantas vezes:

Seria tolo

Ao meu ver

Sonhar com um caminho

Que você já está a percorrer

Mas não era Jorge que estava cantando; era um homem que ela não conhecia, ou melhor, achou que viu alguma vez, junto dos integrantes da produção. Ainda assim, seu figurino, com o terno solene e maquiagem pálida, eram impecáveis, e sua voz tinha mais nuances do que a do ator.

 A peça não acabou pro um capricho. Afinal, o show tem que continuar.

***

(dueto, Nala, Mr. Blank):

 E num mundo tão estranho

Hesito a despertar

Na luz do sol em que me banho

Mal posso acreditar

Que um dia o chamarei

Lar

(Mr. Blank beija a mão de Nala. Eles se olham, de sorriso no rosto. O encontro inesperado dos dois mostrou-os o caminho do lar.)

(Nala segue a estrada do mundo real. A família dela deve estar em algum lugar. Mr. Blank a acompanha com o olhar, até ela sair de cena. Quando só, encara a plateia uma última vez e se volta para o espelho disposto no canto do palco. Ele o atravessa, e vai embora.)

FIM.

 As cortinas mal haviam se fechado, todo o público estava aplaudindo em pé. Jorge assistia dos bastidores enquanto Carmélia, Carlos e alguns dos figurantes agradeciam à presença de todos.  Ele estava com a garrafa em mãos, havia bebido quase tudo. Foi aí que ele percebeu que Ana estava lá na fileira da frente, como prometido.

 Claro que ela não iria dar a Jorge a satisfação de vê-la ali, o assistindo. Por isso, no primeiro ato ela sentou em uma poltrona disponível lá no fundo do teatro. Ela ouviu os momentos em que ele gaguejou e fraquejou, orgulhoso demais para aceitar uma história em que ele não era o maioral. No segundo ato, quando Ana percebeu que era outro ator no papel dele, foi uma surpresa agradável, já que ela acreditava que o ex marido conseguiria estragar a peça por completo, mas parece que os envolvidos o conheciam bem. Por fim, ela gostou muito da apresentação, e pensava no que ela poderia escrever sobre a jovem atriz estreante, com sua atuação perfeita. E como diria que Jorge estava acabado.

 Um ator embriagado se arrastou para as áreas mais sombrias dos bastidores. Quem sabe onde ele foi parar.

 Carmélia atingiu o seu sonho de tanto tempo. Agora, mesmo que nunca mais apresentasse, já estava realizada. Mas mesmo assim era um pensamento bobo, acreditar que suas apresentações já haviam acabado, afinal, a turnê apenas começava.

 O diretor correu para a cenógrafa e a abraçou, olhou-a nos olhos e prometeu que nesta semana se esforçaria o máximo para trazer as ideias dela aos palcos. Priscila sorriu, mas admitiu que ele não precisava se preocupar com isso, porque, na tentativa de manter o que era essencial, ela conseguiu uma cenografia que funcionava muito melhor com a atmosfera criada pela peça. Existem momentos em que menos pode ser mais.

 O autor do texto original continuava no camarote. Ele não havia contado a qualquer um, até porque achava que não se importariam, mas que antes desta peça, ele nunca havia entrado em um teatro de verdade. Somente assistira a peças de rua e gravações na televisão. Ali, ele sentia o espetáculo, a maravilha que ele escrevera em sua obra. Todo o tempo teve medo que o diretor não a transmitiria na peça, mas pelo visto ele entendeu bem. Tímido e sem muito conhecimento de tetro, esteve nos ensaios como espectador e de nada interferiu. Ainda bem que o outro guardou tão bem a sua obra.

 Do mezanino do teatro, o diretor observou o palco uma última vez, enquanto uma torrente de pessoas esvaziava o prédio. Reconsiderou cada ator, papel e conflito que vira desde o início dos ensaios, e suas respectivas resoluções.

 Servia muito bem para ele, não é? Destes pontos, ele foi capaz de tirar as conclusões que precisava sobre sua própria vida, e até teve uma epifania. Com um último sorriso naquela sua fábrica de sonhos, ele foi embora e se deixou relaxar. As paredes e as pessoas sumiram atrás de seus calcanhares, enquanto ele fazia seu caminho pelas memórias de um caminho pelo centro de uma cidade, cantarolando até sumir de vista.

 

“The fool on the hill

Sees the sun going down

And the eyes in his head

See the world spinning round” – Beatles

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3 comentários em “Nowhere Man

  1. “ChronosFeR2” me ha traído hasta aquí y me alegro porque me gusta lo que he encontrado. Mucho ánimo para continuar con tu proyecto. Beleza.
    Me encantaría invitarte a tomar un té con hierbabuena en “El zoco del escriba” para seguir hablando de lo que prefieras.
    Alberto Mrteh (El zoco del escriba)

    Curtido por 1 pessoa

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