Contos

Crônica de uma manhã cinza

 – Faz tempo que não caminhávamos juntos, né?

 A manhã enevoada não dava espaço para o sol. Éramos nós dois no meio nada, o cinza-esbranquiçado absoluto que nos confinava num pequeno círculo de grama.

 Seguíamos o caminho das nossas lembranças, as trilhas do sítio da família, que há muito estava praticamente abandonado.

 – Ninguém mais vive aqui. Desde que o Tio foi morar na cidade, ele só passa aqui de vez em quando para dar comida aos animais que sobraram. Você conseguiu ver a casa, quando chegou? Não tem mais o telhado.

 O caminho de chão batido ainda era visível, uma área de mato mais jovem que os arredores. Chegamos à porteira marcada com um crânio de novilho, e eu iria a evitar, seguindo a trilha que circunda a cerca de arame, para longe da mata selvagem que cabos enferrujados guardavam. Mas ela abriu o portão e continuou em frente.

– Na verdade, não é só o tempo que caminhávamos. Faz tempo que não nos víamos.

Silêncio enquanto descíamos a colina.

– É estranho como as pessoas se distanciam. Você, primo, era tão próximo quanto meus pais. Era tão próximo quanto o Tito.

Ela sorriu quando olhou para mim, mas não havia alegria ali. Aquele nome doía.

– Como estão os seus pais, Hellen? Aquela foi a primeira vez que eu quebrei o silêncio.

Ela mexia as mãos dentro do bolso único do moletom. Parecia desconfortável.

– Estão bem. Eles estão.

 Fizemos uma curva fechada, e começamos a subir outra colina. Ali o arvoredo era um cinza-escuro único, denso, uma sugestão que o mundo não acabava no limiar da grama e nas árvores mortas, que entravam no nosso campo de visão.

 Sabia onde aquela trilha levava, e não podia admitir não estar com medo do que aconteceria a seguir.

– Precisei procurar pelo estado inteiro para conseguir notícias suas. Você sumiu das nossas vidas. Por quê?

 Não adiantava responder. Depois de todos esses anos, ela acreditava em sua teoria mais do que tudo.

– Achei que você não ia aceitar o meu convite, de fazer esta caminhada matinal. Parece que tive uma boa surpresa, afinal.

 Então chegamos ao fim da linha. A árvore seca ainda trazia em seus galhos o lenço vermelho, por mais que ele, assim como o mundo todo, tivesse desbotado para uma cor indefinida e sem vida.

 Ela sorriu e se segurou à árvore, quase como se não fosse sua intenção me trazer ali, e estivesse surpresa por ter encontrado aquela memória perdida, aquela marca.

– Lembra da brincadeira que você e Tito faziam aqui? A história da passagem para a vila secreta nas montanhas mais adiante. Vocês paravam aqui, pegavam o binóculo e viam seus amigos da cidade mágica. Ninguém mais via.

– É porque vocês não olhavam na hora certa.

 Fui em direção do que lembrava ser a continuação da trilha, a que só nós conhecíamos.

 Ela se virou e andou até onde eu estava, me encarando com aquele sorriso sem alegria.

– E um dia vocês foram até lá.

– Fomos.

 Com um movimento brusco, ela tirou a mão direita do bolço, a mão que manteve escondida pelo caminho inteiro, e estendeu o braço na minha direção. Uns poucos raios solares fizeram o revólver cromado reluzir.

 – E Tito não voltou mais.

 Sabia que ela teria uma reação ruim, mas não esperava tanto. Seu eu pudesse levar Hellen um pouco mais adiante, mostrar para ela o que eu sabia, poderíamos conversar de forma civilizada novamente.

– Me fale o que aconteceu, e me fale a verdade! Cansei da história infantil, das mentiras que todo mundo fingiu acreditar! Eu sei que você sabe o que aconteceu, e eu preciso saber também! O quê você fez com o Tito?

 Dou um leve passo para trás, em direção às pedras da trilha escondida.

 Mas eu errei o palpite. Apoio o meu peso no nada e caio num barranco, em direção às árvores.

 O mundo girou, e o verde, o cinza e o marrom se juntaram com os cheiros da terra, da umidade e de matéria morta num triste panorama daquele lugar esquecido. Os sons da queda quase abafaram o estalo metálico, um som que em nada se parecia com o das armas de filmes ou dos noticiários da TV.

Quando parei, deitado olhando para o céu, ela desceu a encosta correndo. Tremia. Ouvi quando ela largou a arma ali perto, num baque surdo.

 – E-eu não queria atirar, não de verdade, desculpa, você me assustou ali…

– Sem problemas. Não me acertou.

 E tudo estava bem, mesmo. Alguns pássaros voaram com o tiro, e mais nada.

 Chegamos ao lugar certo. Mesmo dolorido com a queda, me coloquei em pé, e mostrei todos os detalhes da trilha que contávamos a ela, quando éramos crianças. A estrada de pedra. A torrezinha, no meio do caminho, visível dali. A placa da entrada da cidade, um letreiro com os dizeres “BEM VINDO À…” e o nome do lugar riscado e ilegível há muito tempo.

 – E se quiser, podemos seguir o caminho. O Tito poderia contar tudo que você quer saber, quando chegarmos lá.

 Ela me olhou de relance e não pensou duas vezes: seguiu a trilha de pedras amarelas em direção ao desconhecido, e em direção ao seu irmão perdido.

 Voltei, peguei o revólver e o guardei no bolso interno da minha jaqueta, e então a segui.

 Continuamos nossa caminhada.

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6 comentários em “Crônica de uma manhã cinza

  1. Que envolvente. É intenso, ágil! Amei o conto. ❤

    O texto é lindo.
    Lendo, me remeti a um pedido de olhar para nosso passado, sem deixar de seguir em frente. Aliás, remoer as indecisões é somente aumentar nossas angústias. Olhar o que passou é tentar acertar agora.

    Curtido por 1 pessoa

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