Resenhas

Resenha Sonho Febril – George R. R. Martin

“- O senhor tem sido honesto comigo, capitão Marsh. Não vou retribuir sua honestidade com mentiras, como vim tentando fazer. Mas tampouco irei sobrecarregá-lo com o fardo da verdade. Há coisas que não posso lhe contar, coisas que o senhor não teria por que se preocupar em saber. Deixe que eu lhe imponha meus termos, nessas condições, e veja se consegue chegar a um acordo. Se não, podemos nos despedir amigavelmente.”

 Enquanto explorava o mundo criado por George R.R. Martin para as suas Crônicas de Gelo e Fogo, fiquei curiosa para conhecer outras obras do autor, e ver como ele trabalha dentro de cenários além da fantasia medieval. Esta busca me trouxe uma ótima surpresa.

 Sonho Febril trata-se da interpretação de Martin sobre os vampiros, e conta como pano de fundo os Estados Unidos de meados do século IXX, pouco antes da Guerra Civil americana.

 O capitão Abner Marsh, muito conhecido no alto rio, está enfrentando a pior crise de sua empresa de barcos à vapor. O degelo após o inverno destruiu quase toda sua frota, o deixando com apenas um pequeno barco ultrapassado. Mas sua sorte parece prestes a mudar quando um estranho, chamado Joshua York, oferece a proposta de comprar metade da companhia de Abner e também o ajudar a construir o maior, mais belo e mais rápido vapor que já cruzou aquele rio. Claro que propostas assim não vêm sem condições, e as de Joshua são bastante estranhas.

  Ainda assim, o vapor nomeado de Fevre Dream está pronto para zarpar três meses depois.

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 A época e local escolhidos por Martin contextualizam os temas da trama de forma excelente. Traçando paralelos às condições vividas pelos personagens fantásticos e a mentalidade pertinente ao período da escravidão, conta-se uma história de busca por liberdade e igualdade em uma abordagem pouco comum na temática do vampiro.

 Da mesma forma que em seus livros mais conhecidos, a ambientação é detalhada a ponto de você se sentir transportado ao lugar. Em todos os níveis do navio, dos maquinários e convés de carga até o elegante salão dos camarotes, tem vida. Os personagens principais também têm a amplitude e a moralidade ambígua que tornam as histórias de Martin mais humanas.

 Quando se trata de vampiros, porém, vou que admitir que tenho pequenos “preconceitos” contra alguns clichês, que costumam mais serem ferramentas estilo deus ex machina para deixar a vida do escritor mais fácil do que úteis a história. George Martin usa três desses clichês com os quais tenho problemas, mas por outra razão: neste contexto, eles servem à trama. Da forma que ele os usa, cada elemento tem um espaço na sua comparação entre os vampiros e humanos e os senhores e escravos. Com isto, ele me mostrou mais possibilidades dentro da temática que já acreditava conhecer bem.

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O salão de jantar do navio à vapor ainda ativo American Queen. Uma ideia de como seria estar à bordo do Fevre Dream.

 Mas também houve coisas me deixaram um pouco desapontada com a obra. Por ser um standalone, ou seja, livro em que a história começa e termina num só volume, é compreensível que o desenvolvimento de personagens menos importantes seja deixado de lado.  Mas ainda assim, há pouca presença feminina na obra, e vários personagens curiosos não tiveram suas histórias contadas. Ah, e claro, o leitor tem que preparar o coração, porque a fama de assassino de Martin também está presente aqui, e, em certos momentos, é de deixar furioso, atirar o livro na parede e ir embora, só para voltar a ler logo em seguida, louco para saber o que acontece.

Enfim, Sonho Febril é mesmo como um sonho doentio: a forma que você acredita que a trama irá se desenvolver passa diante de seus olhos, e então modifica, gira em torno de si mesma e avança por caminhos mais amargos do que você imaginava. E então, quando você finalmente se acostumou com os personagens e as rotas, a história acaba. É um livro que ficou em minha mente por vários dias depois que eu terminei de ler, e certamente irei relê-lo em algum momento.

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2 comentários em “Resenha Sonho Febril – George R. R. Martin

  1. Faz algum tempo que eu me pergunto o que aconteceu com o meu gosto por pull fiction. Eu amava histórias sobre vampiros, seres fantásticos. Devorava livros sobre esses temas, mas nos últimos tempos, sinto preguiça sempre que vejo que lançaram mais um.
    Deve ser fase… rs
    Eu tenho uma mania de não ler o que todos estão a ler, mas li GRRM e gostei do estilo-ritmo, mas não me interessei por seguir na leitura.
    Deve ser fase… rá

    Achei curioso você citar os famosos clichês vampirísticos… foi uma das coisas que me fez gostar de Buffy (na década de noventa). Eles brincavam com todos os clichês das histórias e sempre havia um personagem para ironizá-los. Mas, no final da série (depois de sei lá eu quantas temporadas) se renderam aos clichês. aff

    bacio

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    1. Todos querem ter a sua própria versão das lendas antigas, haha
      O estilo de Martin é muito agradável e vale a pena tentar continuar a leitura 🙂
      Quando bem usado, até o maior clichê dos clichês pode ser um diferencial. Sátiras fazem bom proveito deles 😉 Pena que, assim como quase toda série que é estendida pela fama, perdeu o seu foco inicial 😦

      Abraços e boas leituras!

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