Resenhas

Resenha Count Zero – William Gibson

“Estava novo em folha. E como era isso? Não sabia. Pegou as coisas que o Holandês lhe deu e partiu de Cingapura. ‘Casa’ era o hotel Hyat do próximo aeroporto. E do próximo. Como sempre”

 Continuando com a Trilogia do Sprawl, desta vez li Count Zero. Lançado dois anos após Neuromancer, em 1986, é possível ver um grande desenvolvimento no estilo de Gibson, embora algumas de suas falhas continuem ali.

 O livro apresenta três protagonistas: O mercenário Turner, a crítica de arte Marly, e o aspirante a hacker Bobby Newmark, que dá a si mesmo o apelido de Count Zero. A ambientação se passa no mesmo mundo que Neuromancer, sete anos depois.

 Cada um é protagonista de sua própria história, e segue de forma similar das Crônicas de Gelo e Fogo, que muda o foco narrativo de um para o outro em cada capítulo. Ainda assim é possível perceber desde o início que as três tramas vão se conectar em algum ponto, e o mais instigante na história, que te mantém interessado até o fim do livro, é a curiosidade de saber como três pessoas tão diferentes estão interligadas.

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A megalópole norte-americana apelidada de Sprawl, junto o filme Blade Runner original, consolidaram a estética cyberpunk. Imagem por Richard Roberts.

 O primeiro capítulo é sobre Turner. Após um incidente em que uma bomba quase o mata, grande parte de seu corpo tem que ser reconstruído. No meio de sua recuperação mental, ele é chamado para um novo trabalho: fazer uma transferência ilegal de um funcionário importante da Maas Biolabs para a Hosaka, duas empresas de tecnologia que competem entre si.

 No futuro não tão distante do Sprawl, as pessoas vivem dentro das empresas como se fossem seus países, sem permissão para sair. Quando novas oportunidades aparecem, elas tem que contratar mercenários como Turner para ajudá-las na fuga. Essa história tem a tensão de um clímax de filme de ação, e Turner é o protagonista cujos motivos, passado e emoções são mais explorados.

 Entre alguns agravantes de sua história estão a falta de confiança que Turner tem em seu contratante, Conroy; a variada equipe de mercenários que ele tem que comandar para o sucesso da missão; e o fato que ele receberam pouquíssimas informações sobre Mitchell, cientista que devem transportar.

 Para deixar as coisas mais estranhas, eles recebem um “biochip” produzido pela Maas sobre Mitchell. Turner está acostumado a ligar microchips numa espécie de “porta USB” que tem em sua têmpora para acessar informações, mas o biochip só manda uma cascata de imagens  e sentimentos confusos quando o usa.

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O uso de chips conectados direto no cérebro também é um dos pontos centrais de Jhonny Mnemônico, um conto de Gibson situado no mesmo universo. Ele virou filme em 1995, estrelando Keanu Reeves.

 Então somos apresentados a Marly. Após seu namorado Alain tentar enganar um milionário com uma obra de arte falsa e ser pego, eles perderam a galeria de arte que tinham juntos, e Marly teve que responder pelo escândalo enquanto Alain fugia.

 Ela dormia no sofá de sua amiga Andrea quando recebeu uma proposta de emprego de um dos homens mais ricos do mundo, Herr Josef Virek. Ele era conhecido como um grande patrono das artes, e propôs a ela uma tarefa bastante simples: Encontrar o artista responsável por uma obra que ele havia adquirido recentemente. Marly tinha a vida inteira para fazer isso, com salário vitalício até que o encontrasse.

 A proposta é feita dentro de uma realidade virtual que simula Barcelona, e Marly percebe que havia algo extremamente errado na projeção afável do senhor de óculos circulares.

 “Por um instante ela soube, com a certeza do instinto mamífero que os extremamente ricos não eram mais nem de longe humanos.”

 Seu reencontro com Alain, a presença de Paco, ajudante pessoal de Virek, junto com a sensação de estar sendo constantemente observada, tornam a história de Marly um suspense instigante.

 A última história a ser apresentada é a de Bobby, e já começa com uma tentativa falha de hacking.

 O menino comprou do traficante Two-A-Day um software para quebrar o ICE, a segurança, de determinado site. O vendedor foi tão legal com ele que até escolheu um endereço que seria fácil de quebrar. Mas quando Bobby fez sua “incursão” pela matrix, o software não funcionou, e um ICE extremamente forte reagiu e o eletrocutou.

 Este teria sido seu primeiro e último hack, se não fosse pela aparição de um garota, uma visão que o ouviu e desligou o aparelho antes do pior acontecer.

 Bobby, que criou o apelido Count Zero a partir de um jargão de programador, corre para perguntar o que houve de errado com o programa que o traficante o ofereceu… E já longe de casa lê a notícia de que seu apartamento havia sido explodido por uma bomba, provavelmente com sua mãe lá dentro.

 A relação complicada entre a mãe e o filho, a vida nas gigantescas moradias populares chamadas de Projetos, e o choque de vivência entre Bobby com praticamente todos os personagens mais velhos que ele tornam esta a história com a ambientação mais rica, mas também um pouco cômica.

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O que não pode faltar em um livro da Trilogia do Sprawl é a figura do hacker explorando o ciberespaço. Imagem por Jose Borges.

 Em Neuromancer, lembro de ter adorado o livro no início pela ambientação incrível, um trabalho de ficção especulativa bastante complexo, o futuro como visualizado por Gibson  nos anos 80, completo com gírias, globalização avançada e a forma que a tecnologia mudou o cotidiano das pessoas. A história também era boa, dinâmica o suficiente para você querer não largar o livro até descobrir se, afinal, eles conseguem concluir a missão.

 Mas aí entra o problema de que Neuromancer é tão dinâmico que fica difícil de acompanhar, principalmente durante as cenas dentro da matrix. E pior ainda – ao invés de um clímax explosivo, com toda aquela energia acumulada na trama até ali, teve um anticlímax fraco e confuso que acabou com as minhas expectativas.

 Count Zero tem as mesmas qualidades que seu antecessor, com o bônus de mostrar como a tecnologia evoluiu nos anos entre as duas tramas, e de lembrar a primeira por meio de um personagem que aparece em ambas. Também é possível ver que Gibson tem maior controle do texto, e este tem o passo mais lento, mas é mais fácil de compreender.

 Porém, o anticlímax ainda é um grande defeito. Não é tão grave quanto Neuromancer, mas no meio para o fim de Count Zero é possível perceber a história desandando. E um das coisas que mais atrapalha neste momento é exatamente a ambientação.

 Gibson vai a fundo para ter certeza de que o leitor está vendo exatamente o mesmo ambiente que ele, tanto, que ele deixa a construção dos personagens um pouco de lado para dar mais espaço aos detalhes. Muitos das personagens ficaram sem profundidade, o que seria muito mais interessante do que saber todos os conteúdos de uma gaveta, ou se o esmalte da unha da Marly estava descascando.

“(…) Havia prateleiras de arame cheias de sacos plásticos de bolinhos de krill, uma diversidade de guarda-chuvas abandonados, um dicionário grande, um sapato azul de mulher,um estojo de plástico branco com uma cruz vermelha pintada com esmalte de unhas meio escorrido… Agarrou o estojo e voltou, pulando por cima do bar.”

 Não pense que estes pontos estragaram a história completamente. Eu adorei, principalmente no início, mas quando acabei senti que o livro poderia ter sido mais longo, ou escrito de outra forma, e certas coisas que foram deixadas em aberto poderiam ser melhor exploradas.

 Mesmo com seus defeitos, foi uma boa leitura, mas espero que Mona Lisa Overdrive, último da trilogia, corrija alguns erros dos seus antecessores.

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2 comentários em “Resenha Count Zero – William Gibson

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