Contos

Mini conto – Reflexões de uma tarde de domingo

 Passo pelo tronco outra vez – um pedaço de madeira flutuante atracado entre as rochas.  Três voltas e retornei ao mesmo ponto da praia.

 Fui tolo quando achei que sairia facilmente. Costumamos pensar que somos impunes, que as tragédias que vemos nunca aconteceriam conosco, mas então nos encontramos olhando para o ponto de partida de três voltas atrás e nos percebemos presos em nós mesmos.

 Continuo em frente, de qualquer forma. Não há razão para parar, nem mesmo o cansaço.

 Quando me vi no topo da ilha 436 fiquei aliviado, porque sabia da saída em sua base. Descendo das ruínas até a vila, e a porta dos fundos de uma casa simplória me levaria de volta, para longe daquela ilha grega. Mas havia algo errado, e a porta só levava à cozinha. Talvez a ilha fosse alguma espécie de cópia da 436 – não havia moradores e ela estava decrépita.

 Passo pelo tronco novamente. Ilha 436. Naqueles primeiros anos, parecia mais científico nomear localidades psicológicas com números, mais fácil de identificá-las na tese.  Aqueles lugares merecem mais do que números, principalmente os que se mantém estáveis. Mas o experimento não deixava espaço para emoções.

 Observo o mar. O horizonte continua escondido atrás da névoa, mas acho que vi um navio. Pode ser que seja, pode ser que não fosse e que agora tenha aparecido porque imaginei o ver. Esse lugar se alimenta de confusões para expandir.

  Os primeiros experimentos foram simples, apenas eletrodos em pacientes e observação de diagramas. Desde o primeiro participei deles como pesquisador e pesquisado, graças à minha facilidade de entrar na fase REM. Já nestes dias, ficamos impressionados com a facilidade que sonhos lúcidos tinham de criar um próprio mundo. Diferente dos comuns, eles partiam para locais e situações que o sonhador jamais vivenciara, e as localidades reapareciam em sonhos seguintes.

  Logo vieram técnicas e equipamentos mais avançados. Qualquer um podia entrar num sonho lúcido em poucos passos, sua experiência sendo assistida ao vivo por um grupo de pesquisadores.

 Todas as pessoas, debaixo de uma camada de anseios e receios cotidianos, eram um universo próprio. Suas intenções, relações, imaginário e fé criavam um ecossistema, com seres que imitavam tão perfeitamente a vida que enganavam até os sonhadores mais experientes.

 O tronco. Só mais uma volta, então retomarei o plano de fuga.

 Os efeitos colaterais eram esperados, mas nunca foram preocupantes. Era sabido que estimular a lucidez causaria sonhos deste tipo com maior frequência, assim como as consequências, tal o corpo ficar paralisado temporariamente ao acordar. Tive a maldita paralisia do sono diversas vezes, mas nunca como na última vez que estive acordado.

 Era para ser somente uma soneca numa tarde de domingo, mas acordei abruptamente.  Quando se está paralisado, pode mexer os olhos e os dedos. Mas não dessa vez. Podia mexer vagamente as pálpebras, e só. Pelo ângulo que estava deitado, podia ver a minha filha sentada de pernas cruzadas, desenhando. Quando não consegui retomar os movimentos, resolvi voltar a dormir, sonhar e tentar acordar normalmente.  E fui parar na ilha 436.

 Aqueles primeiros tempos foram assustadores. Tentava encontrar caminhos lógicos à pontos que conhecia, mas quanto mais nervoso ficava, mais eles se fechavam. De andar eu passei a correr, abrindo portas ao desconhecido, mas no desespero sempre ia mais fundo, mais longe de ver a luz com meus olhos reais.

 Acabei aqui, porque aparentemente não tem lugar mais fundo para ir. Chorei, gritei, quebrei rochas e deixei as lágrimas secarem. Aqui eu aprendi mais do que em todas as pesquisas juntas, e espero que não esqueça de anotar tudo ao acordar. Espero acordar.

 Deve fazer o que, um ano? E ninguém sequer achou estranho eu sumir assim? Nem senti alguém tentando me acordar durante todo esse tempo, como se toda a ligação com o mundo real tivesse se rompido.

 Sento em uma rocha, com o tronco em minha frente e as mãos no rosto. Por que aquele seria o fundo da minha mente? Nem vivo perto da praia. Nem tenho boas memórias em uma. E se…

 Ouvi alguma coisa. Levanto na hora. Não, não qualquer coisa, eu ouvi alguém. Esse alguém é a minha filha, e ela está cantando, e posso ouvir o lápis roçando no papel enquanto ela desenha. O som vem do céu.

 “PÉROLA!!” Eu grito, “PÉROLA, POR FAVOR, ME ACORDE. ME ACORDE, PÉROLA!! POR FAVOR”…

 Devo ter ficado gritando por volta de uma hora, na esperança de emitir algum som na vida real e ela vir me ver.

 Até que percebi que ela parou de desenhar e cantar. Ouvi os seus passinhos enquanto se afastava, ecoando pelo corredor. Deve ter ido brincar na sala. “PÉROLA, VOLTE, VOLTE PÉROLA, EU PRECISO QUE VOCÊ ME ACORDE, POR FAVOR…” Ao perceber que ela não volta, que nada atravessou o céu nublado, caio de joelhos e deixo as lágrimas que achei que não  tinha mais escorrerem.

 Não ia acordar. Lá só se passaram alguns minutos, aqui pelo menos um ano. Quanto tempo vai passar se demorar mais quinze minutos para me encontrarem?

 Quando me recomponho um pouco e ergo meus olhos, percebo um brilho em cima daquela madeira apodrecida. Olhando de perto, vejo que se trata de uma grande pérola branca dentro da cavidade do tronco.

 Não estava lá antes. Eu a pego, e sua brancura brilha em meus olhos cansados.

 Ainda iria escapar.

 

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7 comentários em “Mini conto – Reflexões de uma tarde de domingo

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