Resenhas

Resenha O Circo Mecânico Tresaulti – Genevieve Valentine

 Uma coisa que sempre me impressionou no steampunk foi sua capacidade de ser um fringe entre fantasia e ficção científica; trazer o fantástico para a tecnologia e vice-versa.

 Se alguma vez você viu a edição limitada d’O Circo Mecânico Tresaulti, pela Darkside Books, em uma livraria, deve se lembrar. A princípio, ele parece ser o caderno de desenho com a capa mais requintada que você já viu até hoje. A bainha com adornos mecânicos é o que chama a atenção, sem título ou nome de autor. Você o puxa, para além dos outros livros, e o vê inteiro. O rococó de engrenagens e relógios serve de moldura para um par de asas mecânicas que crescem das costas de uma pessoa. Entre elas, a coluna está exposta.

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 Mas não há nomes em lugar algum! Tem que abrir o livro, para ter certeza de que ele não está em branco. Folheando pelas páginas com belíssimas ilustrações é que você encontra “O Circo Mecânico Tresaulti – Genevieve Valentine – Darkside”. E esta economia de palavras só adiciona à experiência.

 Assim como os aldeões, que compram o ingresso para o Circo após verem a imagem de Alec, o homem-pássaro, no cartaz, você compra o livro por curiosidade. É mais provável que nem você, nem eles, tenham ouvido falar do Circo Mecânico Tresaulti, e não saibam o que estão prestes a presenciar. E quando o espetáculo começa, a magia surge de forma que nem você, nem eles, acreditam que ainda existe.

“Os braços da mulher ainda estão bem abertos, você percebe que ela não parou de falar, que sua voz sozinha mudou o ar, e quando ela continua ‘Bem-vindos ao Circo Mecânico Tresaulti!’, você aplaude como se sua vida dependesse disso, sem saber por quê.”

O Circo Mecânico atravessa as fronteiras de uma terra destruída por guerras inacabáveis. Para as poucas cidades e vilas que ainda se mantém naquele mundo arrasado, o show do Circo, com seus artistas mecanicamente aprimorados, é o que sobra de beleza e encanto em suas vidas.

 Todos os aprimorados são pessoas que receberam tratamentos ou presentes de Boss, a chefe do picadeiro. Com a violência e destruição comuns àquela terra, muitos chegam ao Circo à beira da morte. Boss usa sua oficina e seu talento único para revivê-los e os dar um lar.

 Porém, o homem do governo não vê a magia. Ele vê possíveis soldados. Ele quer esta tecnologia para o seu exército, não importa como. Ele quer o progresso de seu domínio.

 E quando dois artistas tem a mesma ambição, o conflito ameaça a paz da trupe. Agora eles têm que lidar com a guerra externa e a interna, antes que ambas os destruam.

“Você realmente precisa saber o que está procurando, quando se trata de Boss.”

 Uma noite no Circo começa com Boss abrindo o espetáculo. A mulher alta e gorda, de cabelos encaracolados, tem a voz tão poderosa que faz a tenda humilde crescer em tamanho.

 A música de Panadrome acompanha todos os atos. A invenção mais complicada de Boss, ele é apenas uma cabeça humana presa a um corpo de latão com instrumentos conectados. Uma banda de um homem só que é capaz das composições mais complicadas, mas que deixa qualquer um desconfortável por causa de sua condição. Ninguém sorri quando se lembra das músicas do circo.

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Ilustrações originais do livro, por Wesley Rodrigues

Os malabaristas humanos são os primeiros a se apresentarem. Eles poderiam ser mecânicos também, mas formaram um sindicato contra isso. Então vêm as dançarinas, sobreviventes que já foram soldados ou trabalharam em fábricas. Elas usam luvas ou botas que imitam próteses mecânicas, mas são tão humanas quanto os malabaristas.

 Então entra o homem forte, Ayar. Enorme, tem a coluna de metal e engrenagens nos ombros, que o possibilitam carregar quatro dançarinas, o banco da frente com cinco integrantes da plateia, e por fim erguer um pequeno caminhão pilotado por Jonah, seu companheiro inseparável. Este sobe na caçamba e abre as portinholas douradas que trás nas costas, para revelar seus órgãos mecânicos.

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 Com a saída dos dois, outra dupla entra no palco: Bird e Stenos. Ele a joga e pega no ar, e Bird parece voar. Mas há algo desconcertante em seu número, uma selvageria inexplicável, e eles deixam o picadeiro sem aplausos.

“São dois acrobatas se apresentando. Não, são dois acrobatas dançando. Não, são dois dançarinos lutando. Não, são dois animais lutando.”

 Para quebrar a tensão, os Irmãos Grimaldi são apresentados pela voz estrondosa de Boss. Alto, Brio, Spinto, Moto, Bárbaro, Focoso, Altíssimo e Pizzicato são saltadores, e provavelmente o grupo mais unido dentro do circo.

 O número de encerramento fica por conta das trapezistas. A plateia já se maravilha com as peripécias que elas fazem nos trapézios comuns, mas a surpresa está por vir. Big George e Big Tom, homens com braços mecânicos de dois metros de comprimento, são colocados em suas posições por Ayar. Eles se engatam à plataforma e tornam-se trapézios humanos. Lideradas por Elena, as meninas pulam, e por dois segundos, flutuam mais leves que o ar antes de descerem novamente. O público adora, e sai satisfeito.

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 O rapaz da bilheteria, Little George, tira suas botas que imitam próteses mecânicas e põe-se a organizar os bancos depois do show. Copos de vidro são raros nesses dias, e não podem ser desperdiçados.

 Havia um sétimo ato, tempos atrás. Alec era um homem forte e belo, com um par de asas mecânicas em suas costas. Ele surgia de cima das trapezistas, abria as asas douradas e voava sobre todos enquanto as palmas durassem. Suas penas de latão produziam notas musicais ao baterem umas nas outras. Este número era a coisa mais fantástica que a plateia vira em suas vidas de guerreiros. Nem tudo eram ruínas; ele era a prova de que ainda existiam coisas que valiam a pena serem vistas no mundo.

 Ele era.

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 Este foi o primeiro livro publicado pela escritora americana Genevieve Valentine, em 2011. Ela já chamara a atenção com seus contos anteriormente, e em 2012 o Circo ganhou o Crawford Award e foi indicado ao prêmio Nebula. Ela atualmente escreve os quadrinhos da Mulher Gato para a DC, lançou o livro Icon, continuação de sua novela política Persona, e continua a escrever contos.

 Com sutileza inigualável, Valentine constrói a imagem do circo para então revelar as entrelinhas de cada personagem. Sua hierarquia dentro daquele mundo dos espetáculos, de onde vem e o que viveram desde a chegada, cada parte de suas histórias é contada ao passo que convém. A cada capítulo que você consegue uma nova informação sobre certo personagem, pontos chave da história são revisitados e você os vê de forma diferente, como um quebra cabeças que se completa aos poucos.

 “O MAIOR ESPETÁCULO JÁ VISTO

HOMENS MECÂNICOS além da IMAGINAÇÃO

Façanhas surpreendentes de ACROBACIA

As maiores

CURIOSIDADES HUMANAS

que o mundo já VIU

HOMENS FORTES,

DANÇARINAS &MÁQUINAS VIVAS

GAROTAS VOADORAS, MAIS LEVES que o AR

ENTRETENIMENTO ACESSÍVEL

para todos e qualquer um

Armas não permitidas”

 O formato da narração mistura primeira e terceira pessoa de forma que as confundem, e as vezes é difícil de dizer se quem está narrando certa passagem é Little George ou o narrador externo à história. Ainda existem os capítulos que são narrações em terceira pessoa do que um personagem está vivenciando naquele momento, referindo a eles como “você” durante a passagem.  O efeito é o mesmo de cenas em primeira pessoa vistas em filmes.

 Em sua nota à edição limitada brasileira, Genevieve diz basear a sua obra na cumplicidade que os artistas de circo sentem quando estão prestes à realizar um truque arriscado. As relações entre os personagens é onde esta inspiração sobe à tona – toques e olhares valem muito mais do que palavras, e falas longas são raras na obra.

 Existem coisas que ficam para a interpretação do leitor, principalmente sobre a natureza dos mecânicos e do dom de Boss, mas isso é bom – Para cada pessoa, o livro é uma experiência. Essa subjetividade pode desagradar alguns, mas para outros, é o momento de deixar a imaginação fluir e seguir outros caminhos naquele mundo, que te deixa pedindo bis no fim.

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 Novamente, aprecio o gênero steampunk por permitir transgressões entre fantasia e sci-fi.  Ciborgues foram explorados em um sem-número de vezes dentro da ficção científica, mas o misticismo e o sobrenatural que envolvem as criações de Boss poderiam se parecer mais com uma desculpa esfarrapada na temática de outras vertentes sci-fi. Dentro da fantasia mais tradicional, de espada e feitiço, aprimoramentos mecânicos podem destoar (levando em conta os cenários mais tradicionais, tenho que destacar).

 Outro destaque é para o encanto da magia dentro do steampunk. Da união da função da máquina com a beleza de sua forma, cria-se o inacreditável, um encanto que é pode se presenciar mas não compreender de imediato. Uma criação steampunk traz a maravilha que as crianças sentem, em ver algo pela primeira vez, para os adultos. Este é um aspecto pouco valorizado, tanto da fantasia quanto do steampunk, e bem utilizado é capaz de criar obras memoráveis.

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20 comentários em “Resenha O Circo Mecânico Tresaulti – Genevieve Valentine

  1. Oie .Tudo bem?

    Acredita que eu nunca li algum livro no genero “steampunk ” .Se.bem que eu não acho que deva ser o tipo de livro que eu goste.

    Mas devo concordar que da vontade de comprar só de ver essa capa maravilhosa.
    A Darkside simplesmente não economiza na hora de fazer a capa dos seus livros.Eles arrasam demais

    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Babi,

      Acho que mesmo para quem não é familiarizado com o tema, O Circo Mecânico é uma leitura interessante, por causa das sutilezas que existem nas relações entre as personagens. Gostei como eles falam muita coisa com poucas ações.
      Também preciso ler mais de Steampunk, e estou procurando por livros que misturam romance de época e Steampunk. É um gênero bem abrangente.
      Sim, a Darkside é fantástica, dá vontade de colecionar todos os livros deles xD

      Abraços

      Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Letícia, sua linda, tudo bem?
    Eu já tinha visto essa capa maravilhosa, mas não conhecia a trama. Estou fascinada, como assim pessoas que possuem partes mecânicas em seus corpos? Pelo o que você falou, realmente um dia nesse circo é um verdadeiro espetáculo. A minha preocupação foi se os malabaristas impediram que eles também tivessem partes mecânicas é porque não dever ser algo bom. E ainda tem esse grupo do governo querendo essa tecnologia. Parece ser muito tenso. Não vejo a hora de ler. Sua resenha ficou ótima!!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Cila!
      É, a história dos aprimoramentos mecânicos é bem complexa, e tem a sua parte boa e sua parte ruim, mas sem spoilers aqui 😉 Procure mesmo, é um livro ótimo!
      E que bom que você gostou da resenha, tenho me esforçado para melhorar a qualidade delas 🙂

      Abraços!

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  3. Olá!
    Esse livro é incrível, desde a capa maravilhosa que só a Darkside é capaz de produzir, atéa história de cada personagem desse circo. Li esse livro ano passado, foi uma leitura muito gostosa, devagar, e cheia de surpresas, e sempre com um ar misteriosos para cada um que ali morava. Um livro inesquecível rs’

    beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Tahis!
      Eu também achei o livro fantástico, o tema, a atmosfera, tudo combinou com o que eu esperava dele quando o vi na loja. Vou procurar mais livros desta autora 🙂

      Beijos para você também!

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  4. Garota, que resenha maravilhosa foi essa que acabei de ler? Sério, foi surreal, parecia que eu mesma estava lendo o livro de tão gostosa que foi.
    Estou louca para ler o livro em sim, e olha, ele me atraiu bastante em varios aspectos, e convenhamos, a Darkside arrasando em mais uma capa.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Puxa Shayanne, que bom que você gostou tanto! Fui inspirada pela escrita de Valentine, com certeza xD A Darkside manda muito bem na parte editorial, tem um monte de livros deles que estão na minha lista desejos.

      Abraços!

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  5. Oi, tudo bem?
    Ainda não conhecia esse livro da editora. Gostei disso, de ver o título só quando abre o livro. Só não gosto de narrativas que variam muito entre primeira e terceira pessoa. Eu fico meio confusa. Não sei se leria o livro no momento, mas não descarto a possibilidade.

    Livros, vamos devorá-los

    Curtido por 1 pessoa

    1. Td bem!
      Essa edição é belíssima, e combina perfeitamente com a história apresentada. Eu só achei confuso de ter certeza de qual personagem está falando em determinado momento, mas a mudança de pontos de vista não atrapalha o entendimento da história.

      Sim, vamos devora-los xD
      Abraços!

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    1. Olá Kênia!
      O Circo Mecânico Tresaulti é mesmo uma leitura excepcional. E o que dizer da Darkside, dá vontade de comprar todos os livros deles!
      Que bom que gostou da minha resenha ^^

      Abraços!

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  6. Olá!! 🙂

    Eu já vi esta capa, tenho a certeza!! Na verdade, seria completamente impossível não se lembrar de uma capa destas!! ahah

    Bem, acho ótimo que o livro junte ficção cientifica e fantasia, e toda essa ideia da maquina e tal me agradou imenso!

    Boas leituras!! 😉
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

    Curtido por 1 pessoa

  7. Olá, Letícia!

    Eu baixei o e-book do Circo Mecânico para o meu kindle, só falta um tempinho para começar a leitura. Estou ansiosa, fiquei intrigada com a capa e o fato de ser uma “circo mecânico”, o que seria bem isso? Eu espero descobrir quando começar a desvendar o livro! Sua resenha está belíssima, Parabéns! Um abraço!

    Drica.

    Curtido por 1 pessoa

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