Resenhas

Resenha A Máquina Diferencial – William Gibson e Bruce Sterling

“Sua atenção está fixada no céu, na silhueta de imensa e fascinante graça – o metal, que no intervalo de tempo da vida dela, aprendera a voar sozinho. À frente desse esplendor, aeroplanos minúsculos não tripulados mergulham e sibilam contra o horizonte vermelho ao fundo. Como estorninhos, pensa Sybil.”

 E assim somos introduzidos a um mundo em que a computação surgiu um século mais cedo.

 Escrito a quatro mãos por William Gibson e Bruce Sterling, A Máquina Diferencial pode ser considerado o precursor do steampunk atual, até por ser o título que nomeou o estilo.

 A premissa retrofuturista retrata uma Inglaterra em meados do séc. XIX. Nela, figuras históricas importantes, que realmente criaram as bases conceituais para a programação, como Charles Babbage e Ada Byron, conseguem dar um salto anacrônico e produzir os primeiros computadores mecânicos. Estes computadores são apresentados como peças massivas, de capacidades similares aos primeiros computadores desenvolvidos pela IBM, mas movidos por motores à vapor.

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A máquina diferencial real de Charles Babbage. Um dos primeiros protótipos de computador.

 O livro explora como seria o cotidiano desta época era junto dos computadores, e que funções as máquinas levariam dentro da sociedade. Como motor central, uma conspiração que envolve uma caixa de cartões perfurados, múltiplas figuras históricas e fictícias, e acontecimentos que realmente se passaram na era.

 O desenrolar da trama é bastante demorado, com os autores focando nos cenários e aspectos sociais do mundo retratado. Alguns temas são as lutas entre classes, assim como o conflito da tradição com o progresso, e o aumento da poluição, já bastante grave na versão real da época. Esta visão enriquece muito o ambiente do livro, mas tenho que admitir ter ficado surpresa quando, de repente, me encontrei no clímax da história.

 Ainda assim, é incrível como certos avanços anacrônicos são apresentados no livro, que reforçam o salto tecnológico acontecido naquela sociedade, a qual já passava pela revolução industrial. Eles vêm para o bem e para o mal, melhorando vidas e deixando problemas mais evidentes. Um bom exemplo seria o registro civil usado na história: um cartão perfurado com números para a identidade do cidadão, que pode ser usado para buscar, nos computadores oficiais, todas as informações que o governo tem sobre determinada pessoa. Sistema bastante prático, mas manipulável.

 Há dois protagonistas, apresentando cada qual sua visão. Sybil Gerard inicia o livro e traz o conflito de classe e o cotidiano dos menos avantajados. Ela e seu caso, Michael Radley, são jovens de classe baixa que procuram algum meio de se saírem melhor na vida. Sybil protagoniza o primeiro capítulo e faz pequenas aparições durante o resto da história.

 O restante é protagonizado pelo dr. Edward Mallory, paleontólogo que, em sua última expedição, encontrou a ossada de brontossauro mais completa descoberta até então. Com ele vemos como uma vida mais abastada se daria naquela realidade.

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Imagem por Flavio Bolla

“Do lado de fora do Palácio de Paleontologia, o céu de Londres era uma cobertura de neblina amarela pairando sobre a cidade em sombrio esplendor, tal tempestuosa água-viva gelatinosa.”

 Uma curiosidade é a forma que os capítulos são abertos e adendos feitos pelo narrador os sobre as situações vividas. Trata-se de uma análise mecanizada de algo que já passou, como de alguém que tem acesso à muita informação sobre o acontecimento, mas não estava presente. Parte dessa sensação é causada pela forma que o livro foi redigido.

 Lançado no início dos anos 90, ambos os autores ainda se acostumavam e experimentavam programas de edição de texto, assim como a usar a própria internet como referência bibliográfica.

 Outro ponto interessante é que eles não se reuniam para editar o texto. Cada um escrevia a sua parte, e então a enviava para o outro em disquetes, por correio.

 William Gibson e Bruce Sterling foram precursores do movimento cyberpunk, ramo da ficção científica focado nos avanços da cibernética e da computação, assim como na subversão da ordem social. Quando perguntados que gênero “A Máquina Diferencial” se encaixaria, eles cunharam o termo steampunk (vapor-punk). (Na verdade, existem controvérsias sobre qual autor cunhou o termo. Mas sim, ele surgiu com uma pergunta sobre o gênero de uma obra. Mais sobre steampunk neste post.) Neste verbete acabaram se encaixando múltiplas obras que vieram após a “Máquina”, assim como muitas anteriores a ela. Se caracterizam como ficções ambientadas em sociedades similares às encontradas do meio do séc. XIX até início do séc. XX, com o uso de máquinas à vapor e tecnologias mais avançadas do que a época permitia. Diferente da maioria dos ramos da ficção científica, que falam sobre o que talvez será, steampunk cogita sobre o que não foi.

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 Pretendo fazer um post específico sobre steampunk e cyberpunk no futuro.

 Por fim, “A Máquina Diferencial” é uma excelente leitura para qualquer um que tenha interesse em história, computação e steampunk. É lento, mas agradável, e em muitos aspectos lembra o gênero da ficção original dos autores.

 A versão que li foi a bela segunda edição da Editora Aleph, de 2015, que contém vários extras interessantes. A editora é especializada em livros de ficção científica clássicos, e vale a pena conferir.

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