Resenhas

Resenha de Cujo – Stephen King

 Um serial killer morto há anos, uma família passando por tempos difíceis e um cão infectado por raiva.  Esses cenários aparentemente desconexos se unem em Cujo, uma história de horror desconcertante por Stephen King.

 Cujo é o segundo livro de Stephen King que leio. Antes li Carrie, a Estranha, primeiro da carreira de King.

 A natureza desconcertante de Carrie teve impacto para mim, e percebi que ficava voltando a pontos da história, revisitando-os de todos os ângulos possíveis. Essa admiração levou a uma conversa sobre a obra de King com uma amiga querida, e ela acabou me dando Cujo de aniversário (muito obrigada!!).

 O livro começa com um breve prólogo sobre Frank Dodd, policial louco que assassinava mulheres e crianças em Castle Rock, Maine, de 1971 a 1975. Dodd se enforcou após ser descoberto.  As histórias dos horrores cometidos por ele entraram para o imaginário popular, e os mais velhos as usavam para assustar crianças. Mas claro, Dodd era apenas um homem morto, e logo seria esquecido até na sua infama.

cujo5

“Ele voltou a Castle Rock no verão de 1980.”

 Castle Rock, verão, 1980. Tad é um menino de quatro anos, enfrentando a primeira de muitas noites mal dormidas devido a um monstro que ele jura ver dentro do armário todas as noites. Mesmo depois do pai o acalmar e trancar a porta do closet, ela torna a abrir e a criatura peluda, de dentes afiados e aspecto canino, retorna, com palavras perturbadoras.

cujo6

(Alguém sabe quem é o artista que fez essa imagem? Não consegui achar a original para dar créditos.)
“Eu não falei que eles iriam embora, Tad?”

 Os pais de Tad são Vic e Donna Trenton. Vic é publicitário, dono de uma pequena agência que pode estar com os dias contados, após escândalo causado por um produto de seu principal cliente. Ele precisará viajar durante duas semanas com seu sócio para tentar salvar o emprego e a vida que a família estabeleceu na pacata Castle Rock.

 Donna é habituada com a correria de New York City, sentindo-se deslocada e insegura no novo papel de dona de casa. As tardes costumam ser tediosas, e ela se preocupa que o vazio vá tomar conta do dia dela quando Tad entrar no ensino fundamental. Donna teme pelo futuro, e certamente não quer se conformar com a vida morna das senhoras do clube de Tupperware.

cujo7

“As portas eram como a boca, a escada, como a garganta. Os cômodos vazios se transformaram em armadilhas.”

 Fora da cidade, em seus confins interioranos, há um lugar que Vic se habituou em chamar de Cafundolândia do Leste. Pegando a Route 117 e entrando na esquecida Maple Sugar Road, seguindo alguns quilômetros até encontrar a bifurcação que leva ao chão de terra da Town Road. Escondida atrás de uma colina, pouco antes dos portões do lixão abandonado no fim da rua sem saída, fica a morada dos Camber. O terreno ao redor da casa de fazenda não tem plantações, e o celeiro foi transformado em oficina mecânica.

 Joe Camber é um homem do campo que chega a ser caricato. Fechado, carrancudo e duro com a mulher e o filho, passa os dias trabalhando na oficina e as noites bebendo com o amigo.

 Brett Camber tem dez anos. Munido de um olhar crítico influenciado pelo pai, ele é capaz de ter palpites bastante duros em relação à outras pessoas, mas também muito verdadeiros.

 Charity Camber está cansada. Depois de mais de uma década casada com Joe, ela se vê perdendo influência sobre o filho, cada vez mais parecido com o pai. Os anos passam, e fica mais e mais difícil mudanças acontecerem na vida de Charity. Joe sempre dá a desculpa de falta de tempo ou dinheiro para qualquer coisa que a esposa quisesse. Mas Charity agora se encontra com um papel em mãos, algo que pode fazer uma diferença em seu rumo.

 Joe Camber só aceitou ficar com Cujo porque ele foi dado como pagamento de um conserto, e ração grátis como acordo de outro. Muitas vezes a única companhia de Brett, o massivo são bernardo, de cinco anos e noventa quilos, foi criado solto pelo terreno dos Camber. Depois de caçar um coelho, Cujo voltou para casa com um ferimento profundo na ponta do focinho. Enquanto o verão avança, cada vez mais quente e com a promessa de ser o mais infernal da década, o humor do animal vai de mal a pior.

cujo4

“Não, nada de errado aqui.”

 Enquanto o marido viaja, Donna decide levar o carro para consertar, antes que ela ficasse a pé. A concessionária era muito careira, e Joe tinha feito um bom serviço para Vic no ano anterior. Depois de tentar ligar para a oficina diversas vezes, todas sem resposta, ela decidiu dirigir até lá. Tad também adorara brincar com o cão dos Camber, e quando ele se recusou a ficar em casa com a babá, Donna o levou na viagem. Certamente Joe não se importaria se eles aparecessem sem deixar recado. Ele provavelmente não atendia porque não tinha telefone na oficina, e a mulher e o filho não estavam em casa… Assim começando uma desagradável série de coincidências.

cujo2

“Você pode me sentir mais perto… Cada vez mais perto.”

 Diferente de Carrie, o sobrenatural em Cujo é tratado de forma subliminar. Tudo parece ser um detalhe pequeno, sem importância e causado por sorte ou azar – uma criança pequena imaginando monstros, viagens inesperadas, problemas no carro. Tomar um caminho diferente, de última hora.

 E mesmo assim, todas as pequenas coincidências conspiram a causar e manter um cenário aterrorizante. Juntando isso às súbitas referências a Frank Dodd, e os comportamentos incomuns do cão dão a sugestão que há mais do que apenas doença na raiva de Cujo.

 Cujo não tem capítulos, e apresenta uma história contínua por meio de “cenas”, cada qual tem um personagem como protagonista e revela um pouco a visão, pensamentos e desejos deste perante a situação em que se encontra.  Assim, a história percorre por três arcos, tornando o principal mais suportável e prolongando-o. Se a história fosse apenas este arco, ela passaria a ser maçante rapidamente, mas com a mudança de cenários, pode-se prolongar a situação problema do livro.

 O estilo de King também é muito característico. Várias vezes durante o livro (e também em outros livros), ele termina um capítulo com uma frase de revelação do que está por vir. Minha amiga apelidou essas frases de auto-spoilers, e um exemplo seria a primeira citação dessa resenha, o aviso sombrio de que Frank Dodd retornaria à Castle Rock em 1980.

 Também percebi, tanto em Cujo quanto em Carrie, o uso de palavras chave que mantém a atmosfera da história, mesmo quando o momento ou o arco não estão próximos ao clímax.  Assim, qualquer expressão ou frase tola dita por um personagem, uma descrição da paisagem ou flashback continua a manter em sua mente a situação problema. E elas mantém o tema do livro;  se em Carrie são alusões religiosas e sangue,  em Cujo é sangue e violência, mas também cão, doença, raiva e aflição.

 O aspecto de estilo final que eu gostaria de comentar é logo o que atrai mais críticas ao trabalho de King: o fato que ele usa marcas reais quando se refere a produtos em seu livro. Ele não escreve “uma lata de refrigerante”, ele escreve “uma lata de Pepsi”.  O ketchup que quebrou dentro do porta malas de Donna era um Heinz. Pessoalmente, acredito que a identificação de marcas é uma adição interessante quando se quer passar a ideia do estilo de vida americano, que é tão bombardeado de slogans, marcas e logos. O que vocês acham do uso de marcas reais em obras literárias?

 Por fim, Cujo se trata de um livro chocante e aterrorizante, que prende a atenção e te faz desejar chegar ao desfecho o mais rápido o possível. Há de se notar que é um livro de terror agressivo, que se mantém desconcertante mesmo após a conclusão da leitura. Logo, se procura uma obra cheia de tensão e, como o próprio King comentou em entrevista, que te atinge “como se fosse um tijolo jogado pela janela”, Cujo é excelente.

 Como crítica, posso dizer que o final talvez seja pesado demais, até para a temática. O próprio King preferiu a versão mais “suave” da adaptação do filme do que o fim original. Também falta um pouco de coesão entre o sobrenatural e a situação vivenciada. Por que, especificamente Dodd estaria envolvido? Por que ele estaria focando Tad e Donna?

cujo8

 A edição que li é a bela capa dura lançada há alguns meses pela editora Suma de Letras, da coleção Biblioteca Stephen King. A tradução é excelente e tem como extra uma longa entrevista com King, ótimo material para escritores e aspirantes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s